O Mundo Agora

  • Autor: Vários
  • Narrador: Vários
  • Editora: Podcast
  • Duração: 1:36:36
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Sinopse

Crônica de política internacional de Alfredo Valladão, do Instituto de Estudos Políticos de Paris

Episódios

  • A linha chinesa que vale mais que uma guerra tarifária

    27/07/2026 Duração: 04min

    Enquanto Brasília e Washington encenam a guerra visível das tarifas, uma disputa muito mais silenciosa, e muito mais duradoura, foi decidida em 24 de junho. Naquele dia, a State Grid Corporation of China (SGCC) enfiou a primeira máquina no chão da maior concessão de transmissão da história do Brasil. Mil quatrocentos e sessenta e oito quilômetros de ultra-alta tensão, cortando Maranhão, Tocantins, Goiás e Minas Gerais. Cerca de R$ 20 bilhões. Trinta anos de concessão. Thiago de Aragão, analista político A tarifa de 25% que o United States Trade Representative (USTR) acaba de finalizar contra o Brasil ocupa manchete, mobiliza o Itamaraty, entra na campanha eleitoral. É reversível por natureza, sujeita a negociação, a troca de governo, a decisão judicial, exatamente como foi a tarifa anterior, derrubada pela Suprema Corte americana em fevereiro. Ninguém, no entanto, aguarda o próximo ciclo eleitoral para revogar uma linha de 800 quilovolts fincada no cerrado. Washington briga por fluxo. Pequim, por concreto arm

  • Espanha e Argentina recolocam o racismo no centro do debate no futebol

    20/07/2026 Duração: 05min

    Entre Espanha e Argentina, o futebol mostrou, mais uma vez, que nunca se separa da política. As acusações de racismo contra os dois países não devem deixar esquecer que o esporte deve ser também um espaço de resistência. Thomás Zicman de Barros, analista político Apesar de só ter marcado no final da prorrogação, não há dúvida de que a Espanha dominou a final da Copa do Mundo contra a Argentina. Muita gente no Brasil comemorou a derrota dos nossos vizinhos. Para além da rivalidade e do futebol ruim apresentado pela alviceleste, muitos justificavam a torcida por motivos políticos. Como disse antes mesmo do início do torneio, política e futebol são inseparáveis. Para alguns, torcer pela Argentina significaria legitimar o racismo que marca o país. Houve até quem transformasse essa escolha numa forma conveniente de expiar o racismo brasileiro, apontando o dedo para os outros. A Argentina convive, sim, com um grave problema de racismo. Os episódios se repetem nas arquibancadas, nas redes sociais e, por vezes, entre

  • Copa de 2026 revela que a América do Norte deixou de funcionar como bloco previsível

    13/07/2026 Duração: 04min

    A Copa de 2026 carrega uma coincidência geográfica que ninguém na Fifa planejou e que, ainda assim, diz muito sobre o momento da América do Norte. O torneio está sendo disputado exatamente sobre o mapa do único tratado comercial que costura Estados Unidos, México e Canadá, o acordo que substituiu o antigo Nafta, e acontece justamente quando esse arranjo passa pela revisão mais profunda desde que foi assinado. Thiago de Aragão, da RFI O torcedor que cruzar de San Diego para Tijuana, ou de Detroit para Toronto, estará atravessando a fronteira interna de um bloco econômico que segue formalmente de pé, mas cuja lógica de integração já não se sustenta da mesma maneira na prática. Vale começar pelo que o próprio evento pressupõe, porque é nele que a tensão aparece com mais clareza. Uma Copa repartida entre três países só funciona se a circulação entre eles for fluida, já que seleções, torcedores, equipes de transmissão e equipamento precisam transitar entre as cidades-sede como se as três jurisdições formassem um t

  • O falso dilema da 'escolha difícil' na eleição presidencial francesa de 2027

    06/07/2026 Duração: 06min

    Um possível duelo entre extrema-direita e esquerda radical nas eleições de 2027 reacende o debate sobre normalização do lepenismo e falsas equivalências. Thomás Zicman de Barros, analista político Falta menos de um ano para a eleição presidencial francesa de 2027, e o tema ocupa cada vez mais o noticiário do país. O curioso é que, apesar disso, ninguém sabe ainda exatamente quem serão os principais candidatos. Nesse mar de incertezas, uma hipótese aparece cada vez mais nas conversas políticas: um segundo turno entre o Rassemblement National (Reunião Nacional), partido de extrema direita de Marine Le Pen, e Jean-Luc Mélenchon, líder da esquerda radical francesa. A primeira grande incógnita está justamente na extrema direita. Nesta terça-feira, 7 de julho, Marine Le Pen aguarda uma decisão da Justiça que pode definir se ela poderá disputar a presidência pela quarta vez. Acusada de desvio de recursos públicos no caso dos assistentes parlamentares fantasma no Parlamento Europeu, ela foi condenada à inelegibilidad

  • Copa 2026 expõe fissuras do tratado comercial entre EUA, México e Canadá

    29/06/2026 Duração: 06min

    A Copa de 2026 carrega uma coincidência geográfica que ninguém na FIFA planejou e que, ainda assim, diz muito sobre o momento da América do Norte. O torneio é disputado exatamente sobre o mapa do único tratado comercial que costura Estados Unidos, México e Canadá, o acordo que substituiu o antigo Nafta, e acontece justamente quando esse arranjo passa pela revisão mais profunda desde que foi assinado. Thiago de Aragão, analista político O torcedor que cruzar de San Diego para Tijuana, ou de Detroit para Toronto, estará atravessando a fronteira interna de um bloco econômico que segue formalmente de pé, mas cuja lógica de integração já não se sustenta da mesma maneira na prática. Vale começar pelo que o próprio evento pressupõe, porque é nele que a tensão aparece com mais clareza. Uma Copa repartida entre três países só funciona se a circulação entre eles for fluida, já que seleções, torcedores, equipes de transmissão e equipamento precisam transitar entre as cidades-sede como se as três jurisdições formassem um

  • Como a China trocou a dependência pelo protagonismo estratégico na economia do futuro

    22/06/2026 Duração: 04min

    Visto da China, o G7 parecia girar em torno de uma questão: será que as economias mais avançadas do Ocidente podem reduzir sua dependência de Pequim? Thomás Zicman de Barros, analista político Foi-se o tempo em que os carros chineses pareciam feitos de papelão. Em Xangai, a regra são os modernos veículos elétricos que cruzam silenciosamente as avenidas da cidade. Ao mesmo tempo, milhões de pagamentos são feitos por QR Code e trens de alta velocidade ligam metrópoles distantes em poucas horas. O presente chinês parece, de fato, coisa do futuro. Foi dessa China que acompanhei as notícias do G7 – o clube das economias mais avançadas do Ocidente – reunido em Évian, na França. Sim, mesmo estando longe de Paris, onde moro, continuo falando da atualidade francesa. Mas agora a observo pelo olhar chinês. Oficialmente, a China não era o tema central do encontro. Mas ela estava presente em quase todas as conversas. A principal iniciativa econômica anunciada pelos líderes do G7 foi o reforço da cooperação para reduzir de

  • EUA transformam facções em variável de campanha presidencial no Brasil

    15/06/2026 Duração: 04min

    Toda medida externa que cai num ano eleitoral deixa de ser o que era. A designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos nasceu instrumento de segurança e de risco financeiro. Mas a quatro meses da eleição, se transformou em variável de campanha. E o que a torna interessante é que ela rende para os dois lados ao mesmo tempo. Thiago de Aragão, analista político Antes dos efeitos, um ponto que precisa ficar de pé, porque a leitura preguiçosa já contaminou o debate: a designação não é obra de Flávio Bolsonaro (candidato do Partido Liberal à presidência) nem da família. O Departamento de Estado vinha costurando isso há pelo menos dois anos, dentro de uma lógica própria de Washington, a de jogar a moldura de contraterrorismo sobre o crime organizado latino-americano. O lobby da oposição acelerou e se pendurou ruidosamente num movimento que já corria. Não o criou. Quem troca coincidência de calendário por causa atribui a Brasília um poder

  • Copa do Mundo de 2026 revela choque entre a integração do futebol e política migratória de Trump

    08/06/2026 Duração: 04min

    Entre vistos negados, controles migratórios reforçados e tensões diplomáticas, o Mundial de 2026 expõe o contraste entre a promessa de integração do futebol e a política de fronteiras de Donald Trump. Thomás Zicman de Barros, analista político Na próxima quinta-feira (11), será dado o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2026. Como todo brasileiro, parto do pressuposto de que o hexacampeonato é apenas uma questão de tempo. Mas não é por isso que menciono o torneio. Alguém pode perguntar, de fato, o que uma competição de futebol está fazendo numa crônica de política internacional. A história, porém, não deixa mentir: competições esportivas são permeadas por política. Das Olimpíadas de Berlim em 1936 ao boicote ocidental aos Jogos de Moscou em 1980, passando pelas ditaduras sul-americanas que buscaram legitimidade em grandes torneios, o esporte sempre refletiu disputas que o ultrapassam. Poucas Copas ilustram tão bem essa realidade quanto a que começa agora. Pela primeira vez, o torneio será compartilhado entre

  • Da soja ao petróleo: como viramos o plano B de Pequim e por que isso deveria nos deixar em alerta

    01/06/2026 Duração: 05min

    Existe um tipo de elogio que devia acender o sinal amarelo de quem o recebe. O Brasil acaba de ganhar um desses. Em abril, segundo o levantamento do PRC Leader sobre a estratégia chinesa para o sul global, o país virou o segundo maior fornecedor de petróleo da China. Não por mérito comercial nosso. Foi porque o Estreito de Ormuz estava bloqueado, o Golfo travado, e Pequim precisava de barril rápido vindo de um lugar que não dependesse do humor de Washington, nem de Moscou. Thiago de Aragão, analista político Some a soja a isso. Desde que a China reativou o boicote aos grãos americanos, ela realocou pedidos para o Brasil e para o resto da América Latina e fez o trabalho burocrático fino de garantir que nossos exportadores cumprissem as exigências fitossanitárias para vender em escala. O resultado é um Brasil que, em 2026, acumulou duas funções ao mesmo tempo: o posto de gasolina e o celeiro de emergência da segunda maior economia do planeta. Para o investidor, o número de curto prazo seduz. A demanda chinesa f

  • Cuba, Estados Unidos e os 'Estados delinquentes

    25/05/2026 Duração: 05min

    Ao chamar Cuba de “Estado delinquente”, Donald Trump convida o mundo a desconstruir essa expressão – e a refletir também sobre a delinquência na própria ação dos Estados Unidos. Thomás Zicman de Barros, cientista político Na última quarta-feira, 20 de maio, as relações entre Cuba e os Estados Unidos voltaram aos holofotes. Donald Trump recorreu a uma expressão antiga, mas que continua funcionando como uma espécie de senha moral da política internacional: “Estado marginal”, “Estado bandido”, “Estado delinquente”. Em inglês, se diz rogue state. A fórmula sugere uma oposição binária: existiriam países civilizados, responsáveis, defensores da ordem mundial, e outros que viveriam fora dela, como criminosos internacionais. Cuba, segundo Trump, pertenceria ao segundo grupo. A expressão foi mobilizada pelo presidente americano para justificar o indiciamento, pela Justiça dos Estados Unidos, de Raúl Castro. O antigo revolucionário cubano, hoje nonagenário, governou a ilha socialista entre 2008 e 2018 e é irmão de Fide

  • Acordo sino‑americano pressiona soja brasileira e expõe falta de estratégia

    18/05/2026 Duração: 03min

    Quando Donald Trump pousou em Pequim, na última quinta-feira (14), a coreografia já estava pronta nos mínimos detalhes. Os roseirais de Zhongnanhai foram escolhidos a dedo — aqueles mesmos canteiros que pertenceram à liderança imperial e depois ao regime comunista. Ali o presidente americano caminhou ao lado do líder chinês, Xi Jinping, em um passeio que mais parecia ensaio de filme do que uma reunião entre os dois homens mais poderosos do planeta. Thiago de Aragão, analista político Houve almoço sem agenda divulgada, sementes oferecidas a Trump para que florescessem no jardim da Casa Branca, e a frase de Xi sobre uma "nova relação bilateral de estabilidade estratégica construtiva" recebida do outro lado com a palavra amigo. Quem viu aquilo e achou que era só teatro perdeu o que importava, porque diplomacia de superpotência é sempre um pouco teatro e o que vale mesmo é ler o roteiro nas entrelinhas. E o roteiro, para o Brasil, é desconfortável. Faz dois anos que o agronegócio brasileiro vive uma das melhores

  • Moderação trabalhista impulsiona extrema direita e regionalismos na Grã-Bretanha

    12/05/2026 Duração: 04min

    As eleições locais britânicas revelaram o colapso da estratégia moderada dos trabalhistas, o avanço da extrema direita de Nigel Farage e o fortalecimento de forças regionalistas que colocam em xeque a própria unidade do Reino Unido. Thomás Zicman de Barros, analista político Menos de dois anos separam o momento de consagração de Keir Starmer, ainda primeiro-ministro trabalhista da Grã-Bretanha, daquele que pode marcar sua danação política. As eleições locais realizadas na última quinta-feira na Inglaterra, Escócia e País de Gales poderiam passar despercebidas fora desta ilha do norte, não fosse a dimensão da derrota trabalhista.Já há vozes pedindo a renúncia do premiê. Se não mudar de rumo, Starmer pode entrar para a história como o homem que abriu as portas do poder para a extrema direita britânica, ao mesmo tempo em que fortaleceu forças regionalistas que ameaçam a própria unidade do Reino Unido. Há menos de dois anos, os trabalhistas comemoravam uma vitória histórica. Após catorze anos na oposição, conquis

  • Saída dos Emirados Árabes Unidos da Opep tem efeitos geopolíticos

    04/05/2026 Duração: 04min

    Na semana passada, enquanto o mundo se concentrava no Estreito de Ormuz, em Comey e no possível encontro entre Donald Trump e Xi Jinping em Pequim, os Emirados Árabes Unidos anunciaram, numa nota de imprensa, a saída da Opep, encerrando 58 anos de associação em três parágrafos, com vigência em 1º de maio. Thiago de Aragão, analista político A cobertura foi modesta. As agências noticiaram, os analistas escreveram seus relatórios, e em 48 horas o assunto saiu da circulação. E é essa indiferença que me interessa, porque o que ocorreu em Abu Dhabi não é uma disputa de cotas, mas algo mais profundo, e que diz respeito também a nós, brasileiros, que vendemos minério, soja e estamos quase vendendo terras raras a um mundo cuja arquitetura energética acabou de mudar. Os economistas estão certos quando dizem que os Emirados saíram porque as cotas da Opep não cabiam mais na ambição da ADNOC, a estatal petrolífera de Abu Dhabi. Os números são públicos: a capacidade instalada do país é de 4,85 milhões de barris por dia, m

  • Encontro da esquerda em Barcelona: ponto de inflexão?

    27/04/2026 Duração: 04min

    Em Barcelona, a esquerda global ensaiou sair da defensiva e voltar a ousar. Resta saber se o encontro marcará um verdadeiro ponto de inflexão ou se ficará apenas no diagnóstico de uma crise que já dura tempo demais. Thomás Zicman de Barros, analista político Em 18 de abril, Barcelona sediou o encontro da Mobilização Progressista Global. Mais de cem organizações, oriundas de 72 países, reuniram-se na capital catalã sob os auspícios de Pedro Sánchez, presidente do governo espanhol. O evento se inscreve na continuidade de encontros realizados em Nova York e Santiago, agora ampliados por iniciativa de Sánchez e do presidente Lula, em parceria com a aliança social-democrata europeia, com o objetivo de incorporar mais atores da sociedade civil. Muitos celebraram Barcelona como um ponto de inflexão. E, ao menos no diagnóstico que a esquerda faz da política global, há algo de novo. Ao longo do último ano, critiquei diversas vezes o estado da esquerda no mundo. Disse aqui que partidos e lideranças progressistas têm se

  • Pacotes de IA expõem dilema do Brasil na disputa entre EUA e China

    21/04/2026 Duração: 04min

    Em 23 de julho de 2025, Donald Trump assinou ordem para exportar “pacotes completos” de inteligência artificial, colocando o Brasil entre destinos prioritários ao lado de Egito e Indonésia. A medida intensifica a disputa com a China por influência tecnológica global. No mesmo período, o Brasil firmou memorando com Pequim e negocia com Washington, enquanto amplia dependência de infraestrutura digital estrangeira. Thiago Aragão, analista de geopolítica O Brasil está nominalmente na lista de destinos prioritários. Ao lado do Egito e da Indonésia, o país figura entre os mercados emergentes onde a presença americana precisa ser consolidada, antes que a influência chinesa se torne irreversível. Para entender o que isso representa na prática, vale olhar o que aconteceu com o Japão. Em outubro de 2025, durante a visita de Trump a Tóquio, os dois países assinaram um “Technology Prosperity Deal”, um acordo de alinhamento em política de IA que vai muito além da compra e venda de hardware. O documento inclui compromissos

  • Projeto controverso contra antissemitismo pode contribuir para normalizar extrema direita na França

    13/04/2026 Duração: 05min

    Mal formulada, a chamada "Lei Yadan" abriria espaço para associar antissemitismo a críticas legítimas ao Estado de Israel. Em vez de aprender com o passado antissemita francês para combatê-lo, ela contribui para normalizar o discurso da extrema direita. Thomás Zicman de Barros, analista político O projeto de lei contra o antissemitismo apresentado pela deputada Caroline Yadan abriu uma nova frente de tensão na França. Relatores da Organização das Nações Unidas (ONU), organizações de direitos humanos, parlamentares de esquerda e até integrantes da base governista pedem sua retirada da ordem do dia. E surge a questão: será que a proposta de fato enfrenta o antissemitismo, ou só agrava o problema que pretende combater?  A iniciativa parte de um diagnóstico que, à primeira vista, parece difícil de contestar. Há, certamente, um recrudescimento de atos antissemitas desde os ataques de 7 de outubro de 2023, conduzidos pelo Hamas, que deram ao cambaleante premiê Benjamin Netanyahu o pretexto para iniciar uma ofensiva

  • Guerra no Irã paralisa reaproximação de Lula com Trump e trava negociações comerciais

    06/04/2026 Duração: 05min

    O ataque dos Estados Unidos e de Israel ao Irã congelou de imediato a reaproximação diplomática que Lula e Trump vinham construindo lentamente desde o fim de 2025. Com Washington inteiramente absorvida pela guerra no Oriente Médio, temas comerciais centrais para o Brasil, como tarifas e acesso ao mercado americano, foram empurrados para um limbo sem prazo de saída. O resultado é um vácuo que custa caro aos dois países, justamente no momento em que mais dependem um do outro. Aqueles que vêm acompanhando a trajetória das relações Brasil-Estados Unidos nos últimos dois anos assistiram a uma verdadeira montanha-russa. Saímos de um período de hostilidade explícita, marcado por tarifas de até 50% e sanções direcionadas a ministros do STF, para uma reaproximação cautelosa que, em janeiro de 2026, parecia finalmente ter encontrado um trilho relativamente estável. Lula e Trump voltaram a se falar por telefone, discutiam Venezuela sem trocas públicas de ataques, e a Casa Branca já havia retirado as sanções contra o min

  • Estreito de Ormuz se tornou espaço de manobra da economia mundial

    23/03/2026 Duração: 05min

    O mundo entrou na era dos preços do petróleo de 3 dígitos. O Estreito de Ormuz, mais do que um mero exercício de guerra dos think tanks, agora é uma variável pertinente do cotidiano econômico. O Brent superou a faixa dos 110 aos 115 dólares; não é mais uma possibilidade , mas um preço real. E a dúvida não é mais o “se”, mas o “quanto tempo o sistema será capaz de conviver assim: 15, 45 ou 90 dias?”.  Thiago de Aragão, analista político Nos primeiros 15 dias do bloqueio tudo é expectativa. Os preços explodem não porque hoje faltará petróleo, mas porque o mercado tenta precificar tudo que pode vir a faltar. É quando as grandes economias ainda podem montar a farsa da normalidade: liberando estoques estratégicos, realizando coletivas, falando em disrupção temporária. Mas esta normalidade tem um custo elevado. Com Ormuz fechado, cerca de 20% da produção de petróleo mundial e uma quantidade semelhante de gás natural liquefeito estão mais do que em risco. Dentro de poucos dias, o Brent se equilibra por volta de 110-

  • Da exclusão à aliança: por que parte dos eleitores LGBTQ+ vota na extrema direita francesa

    16/03/2026 Duração: 04min

    Pesquisas recentes sugerem que uma parte crescente do eleitorado LGBTQ+ francês se aproxima da extrema direita. O fenômeno do homonacionalismo mostra como lutas emancipatórias podem ser capturadas por projetos políticos excludentes.   Thomás Zicman de Barros, analista político Segundo uma pesquisa recente, cerca de 32% dos eleitores LGBTQ+ declarariam preferência por partidos de extrema direita – um crescimento de dez pontos em quatro anos. Estudos extraoficiais sugerem inclusive que o grupo parlamentar com maior número de homossexuais seria precisamente o partido lepenista. Sébastien Chenu, que ocupa uma das vice-presidências da Assembleia Nacional, e Jean-Philippe Tanguy, vice-presidente do grupo parlamentar, são os rostos assumidos e conhecidos. Mas há outros. O homonacionalismo é um fenômeno intrigante e, sobretudo, preocupante. É verdade que houve homossexuais de extrema direita na história, como Ernst Röhm. Mas esses casos sempre foram exceções. Durante décadas, a extrema direita foi marcada por um disc

  • Martirização de militante fascista fortalece a extrema direita e a diabolização da esquerda na França

    02/03/2026 Duração: 05min

    Os últimos quinze dias viram a normalização da extrema direita se acelerar. A morte de um militante fascista, transformado em mártir, tem redesenhado as fronteiras do aceitável a do inaceitável na política – e recomposto o chamado “cordão sanitário”: o perigo agora já não seria a extrema direita dos Le Pen, mas a esquerda. Thomás Zicman de Barros, analista político Em 12 de fevereiro, a eurodeputada francesa Rima Hassan, do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI), realizou uma conferência em Lyon. Nascida num campo de refugiados palestinos, ela falaria sobre o conflito no Oriente Médio. Contra o evento, o coletivo “femo-nacionalista” de extrema direita Némésis convocou um protesto. A chamada circulou nas redes, e grupos antifascistas locais foram ao local para evitar intimidações. Mensagens internas divulgadas pelo jornal L’Humanité indicam que, em articulação com grupos neonazistas, as militantes pretendiam “servir de isca” para atrair esses antifascistas. O objetivo era que houvesse confronto. 

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